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É só você sorrir que eu me perco


Você fala, fala, fala e eu juro que tento prestar atenção no conteúdo. Mas fica difícil quando só consigo acompanhar o movimento dos teus lábios ao pronunciar qualquer palavra, chamando minha atenção mais do que o que está sendo dito. E eu balanço a cabeça concordando, incorporando a expressão de que estou entendendo absolutamente tudo o que sai da sua boca, tal como aprendi no cursinho de teatro, e fingindo não querer beijá-lo no mesmo instante. 

A verdade é que ouvi um terço da história e ainda estou tentando adivinhar o resto para montar uma resposta plausível na minha cabeça. Talvez vá soar meio estranha e você não consiga entender meu raciocínio mesmo, porém tanto faz, já que nem eu saberei bem ao que vou estar respondendo. 

Eu me perco em pensamentos, com o olhar estagnado em qualquer foco desfocado do ambiente, enquanto voo para um lugar distante, onde passeio sobre as curvas do teu corpo com a ponta dos dedinhos lhe causando mil e um arrepios e te vejo suspirar com cada toque meu. Você me chama de "amor", eu acordo do meu transe sorrindo que nem boba. Você me pergunta o porquê e a resposta é só mais um sorriso bobalhão acompanhado de um brilho no olhar que eu não sei evitar. Você sorri e eu me apaixono ainda mais. 

Vejo a curvinha do teu sorriso surgir e em meio a ela aquela mísera covinha quase inexistente marca presença me deixando ainda mais confusa entre o real e o ilusório. Desejaria ser o mar no exato momento em que você sorri, só para te encobrir por completo, te aconchegar nas ondas de uma calmaria inquieta e te manter ali, embalado no meu abrigo. Eu seria essa calmaria a vida inteira se pudesse sempre te ver sorrir assim.

Se eu tivesse a opção de escolher entre um céu estrelado e uma parte de ti, escolheria o céu da tua boca, onde faria morada em beijos quentes ao longo de noites frias, entrelaçando olhares ansiosos e misturando nossos corpos numa dança atrevida sob a luz amarelada da lua, em qualquer uma de suas fases. Se eu pudesse escolher, migraria para um novo universo onde o brilho do teu olhar fosse minha galáxia mais bela e eu pudesse me aventurar, como um astronauta que não quer nada, por entre os teus mil segredos escondidos.

É só você sorrir que eu me perco. Nunca sei bem o que eu sinto quando isso acontece, só sei que meu mundo para, o relógio parece tiquetaquear sem sair do lugar. O chão vira nuvem de algodão e é como se tudo fosse colorido por um grande e interminável arco-íris. Talvez eu já nem me sinta num mundo tão real, talvez você seja minha droga alucinógena que me transporta para um mundo ilusório onde eu me sinto tão bem em estar.

Você sorri meio tímido, mas continua contando suas histórias, e eu continuo  fingindo prestar atenção enquanto capto uma palavra chave ou outra e respondo com "sim" ou "não" só para dizer que estou prestando atenção. Enquanto me perco e me encontro nos teus mínimos detalhes e te entrego meu jeito bobo de lidar com esse amor que cresce aqui dentro, num sorriso meio torto. Você pergunta minha opinião e de tanto divagar não encontro um argumento, olho mais uma vez o desenho da tua boca e, no impulso, te roubo um beijo. Não tenho outra resposta para te dar. 

Você, mais uma vez, sorri e eu, novamente, me perco.   

Cuidado, só se aproxime se a entrega for completa

Moço, não hesite em vir, mas se assim decidir saiba que virá com a certeza de estar inteiro. Não sou metades e por assim ser, não aceito partes de ninguém. Me construí preenchendo cada espacinho aqui dentro e não aceito menos do que o mesmo. Comigo as coisas não vem entrecortadas, eu sou intensa demais para quem vem em pedaços. Sou tipo Mentos na Coca-cola, sou bomba atômica de sentimento, eu não sei não ser intensidade. Eu sou, no sentido mais fiel do verbo, e quero que a pessoa seja também, me entende? Anseio por personalidade definida e não por alma influenciável.

Cuidado, só se aproxime se a entrega for completa. Se for para vir não sabendo o que quer, nem se aproxime. Comigo o buraco é mais em baixo, a fila é um pouco longa e o fundo do poço é cheio de mistérios. As coisas não são comuns nessa utopia que eu criei, saiba que entrar no meu mundo requer uma boa dose de loucura e esteja disposto a arcar com as consequências se achar que isso te fará feliz. Como eu já disse, não sou metades, eu criei um mundo completo, complexo demais para quem vem fracionado. 

Não chegue só por chegar, não se aproxime como quem quer algo se não quiser ir mais além. Não sou da superfície, não mergulho em gente rasa, meu lugar é na profundidade da vida. Por isso peço que leia com atenção o aviso estampado no meu olhar: Cuidado! Mantenha a calma, reorganize seus pensamentos antes de se aventurar nessa área restrita e tenha certeza que ao vir, se entregará por completo.

Não quero alguém que me deixe conhecer só a ponta do iceberg, eu quero mergulhar no fundo, esteja a água congelando ou não. Eu quero alguém inteiro, porque eu não sou fragmentada. Alguém que venha para somar: um mais um, não metade de uma fração. Alguém que esteja disposto a encarar uma discussão com bons argumentos, que saiba levar uma conversa sem que vire tédio contínuo. Alguém que não deixe a ressaca do mundo entrar na rotina da nossa sobriedade. Eu não quero o simples comum, eu quero um simples só nosso. Quero a diferença do resto do cotidiano humano, quero alguém que venha composto de novidades de um mundo só seu, alguém que inove o dia-a-dia com base em perspectivas inteiramente suas. 

Eu não quero alguém livre de problemas, quero alguém que chegue e exponha a realidade para resolvermos em conjunto e que quando eu me embolar nos novelos de lã da minha existência, me ajude a desenrolar com soluções, mesmo que cafonas. Quero amor brega de verdade, romantismo exagerado, sentimento que é sinônimo de fazer loucura. Gente que vem com a pretensão de fazer a diferença, de não seguir padrões, de fazer o que ninguém faz, pensar como ninguém pensa e acima de tudo saber que atitude é algo extremamente válido e útil.

Cuidado moço, só se aproxime se, realmente, a entrega for completa. Se tiver certeza que sabe nadar ao mergulhar num oceano tão profundo, se souber que aí dentro desse seu corpinho também habita alguém inteiro que não necessite de porções. Cuidado moço, eu sou intensidade, pode até vir com calma, embalado na maré, mas aos poucos mistura sua cor na minha e de duas partes inteiras podemos ser metades de algo ainda maior.

Amor não se mendiga, menina



Pare de ficar mendigando amor onde não há, menina. Você não precisa disso, não precisa ficar se rebaixando por um pouco de afeto que não quer vir naturalmente. Amor não se mendiga, entenda isso de uma vez por todas. Não se pede um pouco de atenção, não se exige um pouco mais de importância do outro, não se mendiga o que deveria ser recíproco por si só. É natural, vem com o sentimento. Não é preciso e muito menos se deve mendigar amor de ninguém, nunca, em hipótese alguma. Certo?

Não se desgaste emocionalmente por alguém que não move um dedo para te fazer feliz. Essa pessoa não merece o seu esforço diário, sua vontade de deixar o orgulho de lado por amar demais, não merece todo esse valor sentimental que você dá com tanto ânimo. Toda a sua dedicação em deixar de lado você mesma para tentar fazer dar certo aquilo que nem merece tanto assim o seu empenho. Sem que haja reciprocidade nada vai acontecer, consegue entender? Você é suficiente demais para alguém que é de menos. Entenda, não é preciso mendigar um amor que não flui por si só.

É por motivos assim que a gente acaba banalizando um sentimento tão bonito, por deixar complexo algo tão simples e involuntário, algo tão subitamente singelo. Sentimento não se pede, não se exige e talvez nem se conquiste. Temos o livre-arbítrio de amar o outro, assim como o outro tem a escolha de querer nos corresponder ou não. Ame, ame muito, transborde sentimentos. Entretanto não mendigue nada em troca, nem sequer um sorrisinho. O amor é singular demais para ser mendigado.

Temos que ter em mente que para podermos despejar nosso amor em outros corações, precisamos, primeiro, transbordar desse sentimento por dentro. Digo um grande clichê do mundo: ame a si mesmo e só assim conseguirá compreender como é amar o próximo. Realmente devemos aprender a nos dar amor, a enxergar o nosso valor a ponto de não ser preciso nos rebaixar para ganhar o amor de quem quer que seja.

Devemos entender que o nosso coraçãozinho vale muito e que é dele, só dele, que precisaremos para retribuir os sentimentos que nos cercam, o mínimo é cuidar com carinho dessa peça frágil que habita em nós. O mínimo é enxergar o que tem dentro da nossa frágil vontade de amar antes de querer se entregar a alguém. Comece por fazer sem querer receber, aja sem esperar que façam o mesmo por você. Ame sem exigir que te amem de volta.

O amor é natural, menina, não suporta exigências. É algo que vem com trocas de olhares sinceros e tão profundos que mergulhamos na alma do outro, com sorrisos que preenchem o nosso interior, com conversas que te acrescentam a mente. É algo que vem do além, sem pedir licença, chega e se encaixa num cantinho aí dentro, mas chega sem pedir nada em troca. Esse sentimento não se mendiga, menina, o amor só se dá para quem se deu.

Sem paciência para amores vagos

gabrielle-roveda


Chega um momento na vida que a gente cansa de conhecer pessoas, cansa de criar expectativas e se frustrar depois. Vai perdendo a graça, dá preguiça descobrir alguém desde o início e começamos a querer algo sério. A maturidade bate à porta e deixa de lado a euforia adolescente que te faz se apaixonar perdidamente por quem não te deu nem, sequer, um sorriso sincero. A gente vai aprendendo a conviver, a reparar em toques, a identificar olhares e percebendo que não é todo mundo que merece nosso coraçãozinho de mão beijada.

Ando sem paciência para amores vagos, para aquele pessoalzinho que não vai até o fim do túnel e quer ver a luz no meio do caminho. Sem vontade de querer me doar a alguém que não se mostra transparente, que não demonstra o que sente e quer apenas trocar carinhos sem trocar sentimentos. Cansei de amores meia boca, de satisfazer a vontade do outro só para depois mendigar um amor falsificado em troca. Amores assim não me satisfazem mais, amores mortos emocionalmente não me matam mais por dentro. 

Depois dos vinte a gente até tenta, mas não consegue entregar o coração. É tanta decepção acumulada que gera um receio danado, os caquinhos já foram colados tantas vezes que o coitadinho já nem vem embalado com uma faixa de "cuidado frágil" e sim com um aviso de "remonte se puder". E é disso que eu falo quando digo que cansei de amores vagos, de amores que esperam tudo pronto. Ando com vontade de gente que vem com o objetivo vir e não com só o de querer receber.

Meu coração já não é mais inteirinho, a vida já me fez em pedacinhos milhões de vezes e nunca mais eu vou estar inteira para alguém. Por isso quero amores que entendam, que saibam que esse ser humano é peça usada pela imaturidade do conhecimento que se adquire quebrando a cara mil vezes. Quero amores reais, amores que abracem a alma ao invés de apenas o corpo. Gente que não só cole a pele na nossa, mas que una o que tem de especial lá dentro. 

É, cansei de amores que não se importam em ser presença, que não se importam em se importar. Não estou mais para trocas ilimitadas de carinhos, estou para conversas longas de olhares e sorrisos profundos. Não tenho mais paciência para dividir cobertores e travesseiros sem que me toque internamente antes. Cansei de amores que vêm pra dividir, quero amores que chegam para somar. Amores que me acrescentem algo, não simplesmente mais uma preocupação no dia-a-dia. 

Quero amores que não precisem de esforço algum para me fazer feliz, que seja natural. Ando totalmente sem paciência para gente que precisa de esforço para ser quem não é, cansei de pessoas que ainda não se descobriram querendo descobrir o outro. Estou numa fase onde eu quero alguém inteiro, não alguém pela metade. Não quero que me complete, quero que me acrescente.

Cansei de amores vagos, cansei de gente incompleta. 

Deixa eu te levar no peito, moço

gabrielle-roveda


Faz tanto tempo, moço. Tanto tempo que te carrego aqui dentro e te aqueço dia após dia no calorzinho do meu coração cultivando o carinho que ainda guardo em mim. Deixa eu te levar no peito sem compromisso ou cara feia, deixa eu te guardar como quem guarda uma lembrança dentro de uma caixinha e acaba esquecendo num canto do guarda-roupa. Não que eu queira te deixar a pegar pó, mas quero te levar comigo para onde quer eu vá. Não importa o destino, quero ter uma parte de ti, nem que seja simplesmente a lembrança daquele teu sorriso meio bobo, quero te levar comigo a conhecer novos horizontes, a viver novas coisas.

Deixa eu te levar no peito, moço, deixa eu te levar de mãos dadas para onde eu quiser ir. Te conduzir nos labirintos dos meus pensamentos e te perder entre meus dedos só para poder te encontrar com olhar ansioso novamente. Deixa eu te levar para longe, para um deserto qualquer e te curtir entre uma paisagem nada diversificada de areia e calor, deixa eu te levar para o mar e mostrar que se eu pudesse moraria no abraço de uma onda e deixaria você adormecer no meu abraço. Deixa eu te mostrar o meu mundo cheio de metáforas cafonas e clichês quase sempre não ditos, deixa moço. 

Vem cá moço, deixa eu te fazer um cafuné e contar as travessuras do meu mundo. Deixa eu te colocar no colo e brincar com a pontinha da tua orelha enquanto canto com um encanto desafinado aquelas nossas músicas. Deixa eu te dizer que juntos somos um só, que juntos podemos mudar os astros e encarar a vida de maneira mais fácil. Vem, só me dê a sua mão e eu juro que podemos enfrentar todas aquelas pedras no caminho. Deixa eu te levar na bagagem da minha loucura e te fazer entender que, de certa forma, você é meu porto seguro e sem te ter ao meu lado eu não irei tão longe.

Deixa eu te trazer para o meu mundo e mostrar que eu sou essa menina estranha mesmo, que você não se enganou quando pensou que haviam parafusos frouxos em minha cabeça. Deixa eu te apresentar meu café amargo, meu mau humor logo cedo e minha mania por comer fruta no café da manhã todos os dias. Deixa eu te posicionar na minha vida como um alguém que conhece minhas birras e está presente para não suportar meus ataques de raiva uma vez por mês. Deixa eu te mostrar que sei fazer o melhor almoço do mundo e que nenhum fast-food vence minhas receitas de youtube. Vem para eu te mostrar que além de orégano, meu tempero favorito é a tua presença. Vem cá, divide suas manias comigo, o cômodo, a vida e principalmente, o coração.

Deixa o orgulho de lado e confessa que me quer juntinho a você, mesmo com toda essa insegurança de que talvez não dê certo. Mesmo com essa desconfiança que as decepções já geraram, vem e confia em mim, confia em nós mais uma vez. Deixa eu te proteger do mal do mundo, deixa eu ser teu porto seguro quando o mundo começar a desabar. Vem que eu seguro as tuas lágrimas e ao meio delas te arranco sorrisos sinceros, vem para eu ver teus olhos brilharem ao ouvir os pingos baterem no teto, para eu ser teu apoio no encosto da janela enquanto vislumbramos a tempestade ir embora e o sol nascer no horizonte. Deixa eu te dar um beijo de boa noite, de bom dia e de meio da tarde se for necessário. Deixa eu confortar meu coração no teu peito enquanto a noite cai, passa e vai embora.Vem ver o pôr do sol comigo, na praia ou no caos da cidade. Vem, moço.

Deixa eu me redimir, me desculpar pelos maus entendidos e pelas falsas promessas que um dia já fiz. Deixa eu ser uma criança cheia de maturidade e uma adulta imatura do teu lado. Deixa eu ser eu mesma, sem inibição ao teu lado e vem ser o mesmo. Deixa eu te mostrar que você nunca estará sozinho se estiver em meu coração, se morar aqui dentro dessa bagunça que sou eu. Deixa eu te levar no peito, moço, enquanto continuo, apenas em palavras, afirmando o quanto há de você aqui.

Já passou da hora da gente conversar


Vem cá, tem um tempinho? Já passou da hora da gente conversar sobre o que ainda se passa dentro de nós. Pode tirar essa máscara para que eu possa enxergar tudo aquilo que tanto se esforça para esconder. Não precisa ter receio mais, agora somos só nós dois por aqui, já pode parar de fingir. Eu sei o que se passa aí dentro, você até consegue enganar o mundo, mas te conheço o suficiente para saber que teu coração apenas camufla o sentimento. Não precisa alterar a voz, cala essa boca e me diz só com o olhar quem era você até me encontrar? Se agora é tão diferente, o que foi que eu fiz que te fez mudar? Não nega que sente minha falta tanto quanto eu consigo sentir a tua. 

Ainda lembro dos teus lábios tremendo ao sussurrar um "eu te amo" entrecortado e da merda toda que fazia meu coração se derreter logo depois. Então, me diz que é mentira, que nunca saiu da minha vida, que não passa de uma farsa quando falam que nosso amor morreu. Tira o cabelo da cara, me diz que é outra brincadeira do destino para me fazer prestar atenção nos erros frequentes. Não diz que não há lembranças querendo ser revividas, pois sei que há muito mais além do fim. 

Joga essa máscara de lado e já pode tirar essa roupa que serve de barreira entre nossos corações para que eu possa ver que não há arma por trás das tuas palavras. Não há um gatilho esperando pelo movimento certo, se entrega a si mesmo e permite que eu te veja novamente sentir sem medo. Não vou te usar contra ti, não precisa segurar a montanha-russa que desanda aí dentro. Eu sinto a tua tensão, sinto teu corpo andar fora de compasso com teu coração, te sinto minuto a minuto perder o controle. 

Diz para mim, sem culpa, que quis me ver feliz, não com outro e sim contigo. Confessa que em buscas infindáveis quis me encontrar em outro alguém, quis minha versão qualificada em outro corpo por aí e não encontrou nada tão confuso que te fizesse sentir como eu já te fiz. Desfaz esse muro rígido que construiu ao teu redor, deixa eu enxergar sem tanta dificuldade o que eu já consigo ver quase de forma nítida. Não precisa esconder de mim aquilo que conheço em ti tão bem. 

Prende teu olhar ao meu por mais de alguns segundos e prova que eu não mexo mais contigo, não adianta desviar para o lado, ainda consigo ver o brilho engaiolado do teu sentimento fluir. Não é para mim que está mentindo, não sou eu quem tenta enganar. Confessa para si que aquela música ainda te faz chorar, que volta e meia em madrugadas de insônia já me quis para abraçar. 

Assisto aos teus passos como um espectador num balé, te sentindo inalcançável. Não deveria ser assim, não acho que fomos feitos para estar distantes. Tem algo aqui dentro que não me deixa descansar desse amor meia boca, uma voz insistente que não me deixa abandonar hipóteses incertas. 

O grito contido no teu travesseiro ecoa a cidade inteira, o zumbido que me incomoda faz eu te ter por perto enquanto se nega a sentir saudade. E eu te aconchego num cantinho só para dizer que está tudo bem, só podendo enviar minha esperança de volta. Minha maldita esperança nesse romance inacabado que parece não querer morrer. A verdade demora, mas não vai deixar de chegar. Vivemos nessa realidade dura de encarar: sendo concreto por fora e essência por dentro. Não haveria o que despedaçar se não houvessem tantos muros criados. 

Por favor, desacopla dessa caixa rígida, permite que a tua alma sinta o que o teu coração quer expressar. Já me enganei tanto que hoje cansei das tentativas rudes de viver numa mentira, esqueci a vontade de tirar da minha vida o que insiste em não sair. Eu escolhi te amar, com todos os prós e contras. Vai por mim, não precisa inibir nada por medo de se machucar, é libertador quando não se precisa de compromisso para poder amar. Vem cá pertinho? Se permite agir em prol do teu coração, ainda sinto tanto a tua falta.

Sinto muito, mas eu ainda estou de pé


E apesar dos pesares eu ainda estou de pé. Engraçado, uma hora pensei que não conseguiria me reerguer e pouco depois acabei entendo que não precisava dramatizar tanto. Talvez eu tenha deixado de ser idiota e um pouco tola, ou talvez só tenha adquirido amor-próprio mesmo. Foi difícil, sempre é. A gente demora para ignorar o que o coração não deixa negar.

Você não tem noção da rebelião de sensações que crescia aqui dentro sempre que eu tinha a oportunidade de cruzar o teu caminho. Era uma guerra interna entre te querer e te afastar, eu nunca sabia bem como agir. Cresceram diversas sensações, mas eu matei todas aquelas borboletas que se criaram em meu estômago. Exterminei cada asinha colorida que destacava nossa história, me envenenei por dentro para te tirar de mim. 

Não foi fácil, porém ainda estou firme e forte. Levou um tempo danado para superar toda essa minha mania por você e nesse meio todo descobri algo valioso: eu. É, eu mesma. De carne, osso, alma e um coração remendado, entretanto: enorme. Eu me reconheci depois de anos, vi além daquela imagem cheia de olheiras no espelho. Vi além das linhas de expressão ainda leves em meu rosto, das cicatrizes e arranhões. Eu me descobri capaz o suficiente de sozinha, me amar.

Deixei de lado aquelas manias que já tinha pelo tempo necessário para criar outras novas, ignorei o relógio e fiz cada minuto correr para mim e não de mim. Eu me tornei amiga do tempo, não quis que ele curasse minhas dores, quis que me mostrasse novos amores. Eu assumi a postura da felicidade e a cada dia vi no espelho um novo sorriso surgir. 

Eu sorri verdadeiro, depois de meses de felicidades forçadas e caretas mal ensaiadas num teatro que eu deveria ter chamado há tempos de vida. E viver é tão melhor do que tentar me tornar um marionete da minha própria dor numa existência infinita. Você não sabe, mas te agradeço imensamente por todos aqueles milhares de fatos dolorosos que me ajudaram a chegar até aqui.

Obrigada por ter me feito com desfeitas descobrir um amor eterno por quem eu sou. Por descobrir ser aquela da qual você não quer sentir nem saudades, simplesmente para não lembrar do quão bom tudo já foi um dia. É, eu ainda estou de pé e pretendo continuar me reerguendo tantas quantas vezes se fizerem necessárias e já não preciso mais choramingar tanto. 

Não sou obrigada a fingir que gosto daquilo que não me faz bem


Somos obrigados a passar por situações das quais o único sentimento que podemos extrair é: repugnância. Porém, não somos obrigados a fingir que gostamos disso. Eu não sou obrigada a gostar de algo que não se encaixa na minha forma de encarar a vida, na minha forma de pensar. Não sou obrigada a ficar calada e não expor meu descontentamento diante de uma atitude mesquinha voltada a mim. Não vou engolir sapos por conta do bom senso quando for atingida de alguma forma.

Não sou obrigada a ficar calada enquanto me elevam a voz sem nenhuma razão, quando me ofendem ou agridem disfarçadamente. Não vou baixar a cabeça para aqueles que se julgam espertos ao rebaixar os outros, não sou feita capacho para ninguém passar por cima. Tenho sentimentos próprios, traumas não curados e fobias diversas, não sou diferente de ninguém. Se tem um aprendizado que levo comigo é que não se faz ao outro o que não quer que façam a você. Não sou obrigada a aturar algo que me faz sentir abatida. 

Cansei de simplesmente deixar passar. Ignorar sempre pareceu a melhor opção, entretanto, fingir que gosto daquilo que não me faz bem já deixou de ser a escolha certa. Não sou obrigada a isso, não sou obrigada a deixar de esclarecer meus limites para você. Se te falta empatia, faça o favor de praticar. Não serei uma pessoa infeliz e frustrada concordando com o que me contradiz só pelo bom senso. 

Não vou fingir que gosto de quem não me faz bem, não soma, não acrescenta em nada. Eu não preciso fingir que gosto de você se a única coisa que eu sinto é pena. Pena sim, por exalar negatividade, falta de empatia e mais dezenas de coisas que não te fazem um ser realmente humano. Não vou te odiar, isso é o que você faria e eu não sou como você. Mas também não sou obrigada a aceitar o que acontece com resignação.

Não vou viver conforme seus padrões e mais nenhum outro, não vou me vestir de uma roupa que não me serve, se é que entende o que eu digo. Desde que eu não passe por cima de alguém poderei me desviar de tudo o que emperra o meu caminho. Eu não sou obrigada a te aceitar na minha vida e permanecer calada enquanto preciso conviver. Tenho minha força, tenho direito de contradizer, me defender e gritar minha dor. Não preciso me calar diante do mal que me abala.

Não preciso me preencher de nenhuma forma de vingança, só pretendo defender a minha moral. Não vou baixar minha autoestima diante da sua insistência em me pôr para baixo. Eu não preciso de você para sobreviver, não preciso da sua existência mesquinha repleta de atos ruins. Não sou e nunca serei obrigada a deixar de ser luz enquanto vivo em meio a poços de escuridão, mas jamais me calarei diante do que me faz mal. 

Você é aquilo que ninguém vê


Você é o apelido carinhoso que sua mãe lhe deu na infância, os brinquedos que quebrou antes mesmo de poder aproveitar, os palavrões que xingou no mudo a professora, o aperto ansioso no peito e as mãos tremendo antes do vestibular. Você é o seu perfume favorito que está no fim, seu sonho de conhecer Berlim, Londres ou Acapulco. Sua mania de arrancar as cutículas com os dentes, seu jeito de ocupar a cama toda de madrugada. Você é seu braço embaixo do travesseiro enquanto dorme, o sorriso no rosto ao sentir o aroma da primavera e o desgosto de começar a espirrar logo em seguida. 

Você é o amor inacabado que deixou de lado e ainda lembra, o renascer depois do susto daquele quase fatal acidente. Você é aquela mania de dançar no banho e cantar para o chuveiro pensando que ninguém vai escutar, é o jeito torto de cortar legumes, a falta de sal ou o excesso de tempero naquela tentativa de receita vista na internet.

Você é o que você faz. É o violão com a corda arrebentada no canto a pegar pó depois de soltar notas desafinadas ao tentar aprender algo novo. É a dor de cabeça forte depois de horas encarando a luz da tela do seu computador. Você é o beijo que não foi dado, o arrependimento de não ter tentado. É o ar que prendeu para desacelerar o coração quando viu seu ex passar, o borbulhar do estômago numa nova paixão. É o êxtase de apreciar a natureza, a raiva de não se sentir bem em meio as pessoas.

Você é aquilo que percorre sua lembrança. A dor que ainda não cessou, a lágrima que não quer secar, a saudade da comida da mamãe, o eu te amo não dito. Você é o abraço inesperado, a força dada a alguém mesmo fraquejando, a moeda ao morador de rua, o sorriso gentil para uma criança. Você é o que você dispõe. Você é o modo como leva a vida, calmo e sem muita afobação. A coragem em se entregar sem medo, a mania de doar amor sem querer nada em troca.

Você é os gritos que ecoam no silêncio, a garganta que prende suas angústias, as palavras que não sabe como dizer. É o ódio por não ter alcançado, a sensação de incompetência por não conseguir seguir em frente, o jeito frio de levar uma briga. Você é o desprezo de uma sociedade robotizada, a raiva do partido político, a opinião sobre o mundo. Você é o conhecimento que adquiriu, o esforço contínuo em progredir, o pão fresquinho do mercado que finaliza um dia longo em companhia de um café bem quente.

Você é tudo aquilo que viu passar. É o pé de laranja-lima em frente a sua velha casa, o latido do seu cachorro, os pelos brancos do seu gato na sua calça preta. Você é aquele que caminha em direção a maturidade, aquele que rema e mesmo cansado não desiste. Aquele que enfrenta os desafios do dia forçando um sorriso no rosto e ao chegar em casa desaba sem frescura.

Você é o rosto que esconde na fotografia, o olho vermelho depois de uma noite longa. Você é aquilo pelo que luta, é o sonho despedaçado e o desejo realizado. Você é o propósito que migra aí dentro. Você é a verdade da sua história, é os direitos que tem, as obrigações que lhe escravizam, as responsabilidades que assume. Você é o que você quer, sonha, recruta, lê, reivindica, assiste, rabisca. Você é o que ninguém vê. 

Eu ainda sou nós dois


Eu ainda sou nós dois, na verdade, acho que nunca deixei de ser. Ainda sou parte daquele romance precoce que tivemos, sou pedaço daquela esquisitice sentimental, daquele amar sem nem saber qual é a do amor. Eu ainda sou nós dois com as mãos entrelaçadas marcando um futuro no calendário da esperança. Ainda sou aqueles planos mesquinhos que a maturidade não deixa mais inventar, sou a gente enrolados nos lençóis com pizza e pipoca falando bem e mal dos protagonistas na televisão. 

Eu ainda sou nós dois nos pingos de chuva que deslizam pela sacada e brincam de fazer música estalando com pausas no chão. Ainda sou nós dois nas noites quentes de verão onde a insônia insiste em se fazer presente ao estender da madrugada, no aroma salgado de suor misturado com seu perfume barato que eu nunca esqueci ao fim de um beijo longo. Ainda sou esse amontoado de sentimentos aprisionados num coração frágil e retalhado que não encontra o seu valor. 

Não deixei de ser aquela que se importa e sente muito mais do que, de fato, realmente deveria. Ainda sou a garotinha sensível que doa amor sem se importar com o que pode ser retribuído. A mesma dona de loucuras ridículas por quem não faria algo que sequer soasse normal. É. Ainda sou nós dois nas brincadeiras infantis, nas gargalhadas livres de obrigações, no tempo em que a maior preocupação era quantas horas ainda faltariam para podermos nos ver novamente. 

Eu ainda sou aquela boba que dividia o banco da praça para flertar como um pedreiro e achar tudo aquilo bonitinho, apesar de ridículo. Ainda sou nós dois, a mesma apaixonada pelo teu sorriso traiçoeiro, pela merda que era sentir aquela cócega gostosa da tua quase barba na minha bochecha. Ainda sou nós dois, ainda sou esse sentimento brega que não se dissipa de forma alguma. Essa coisa que não sai de mim passem mil anos, essa mania idiota de permanecer no que já foi há tempos. Ainda sou o fóssil desse romance inacabado que insiste em me fazer encontrar vestígios. 

Ainda sou o dedo enrolado no teu cabelo molhado cheirando a xampu logo depois do banho, sou a carícia pelos ossinhos da tua coluna que te arrepiava o corpo todo. Sou o beijo inesperado que te deixava zonzo no meio da noite, o corpo que se encaixava perfeitamente no teu abraço. O sorriso entre um beijo tímido que deixava o ar tão mais leve e o exato segundo ainda mais significante. Ainda sou nós dois do jeito mais errado que eu posso enxergar, ainda sou momentos que minha mente não quer abandonar.

Eu ainda sou nós dois e às vezes isso parece bom, mas na maioria eu queria é exterminar os seus pedaços de mim. Queria poder apertar uma tecla e deletar sua existência e todas essas lembranças boas que me atormentam, queria não ser nós dois. Às vezes queria mesmo deixar de ser o que já foi faz tempo. Só que eu ainda sou nós dois e na real, a verdade verdadeira é que, bem no fundinho, eu espero nunca deixar de ser.